Castas Portuguesas

| Artigo escrito pela especialista de vinhos Maria João de Almeida

Ricas Castas

Receber bem passa não só pela nossa hospitalidade e simpatia, mas muito pela mesa. E o vinho português é motivo de grande orgulho. As nossas variedades autóctones fazem da produção nacional um caso único, diferenciando os nossos vinhos dos restantes países do mundo. Sabiamente combinadas ou utilizadas isoladamente para vinhos monovarietais, as nossas castas exprimem grande originalidade e carácter.

 

Em Portugal existem mais de 250 castas e, segundo os investigadores, há ainda muitas mais por catalogar. Logicamente, nem todas são utilizadas, mas todas elas têm um passado, e nunca se sabe se voltarão a ter futuro. Nos últimos anos, já muito se escreveu sobre as mesmas, mas muito trabalho está ainda por realizar perante tamanha riqueza ampelográfica. Mesmo assim, o que é certo é que as castas portuguesas constituem uma enorme vantagem competitiva para o sector vitivinícola a nível mundial pela sua diferenciação. Eis algumas das mais utilizadas no vinho português.    

Castas Brancas

Castas Brancas
Moscatel de setúbal

Moscatel de setúbal

Casta rainha da região da Península de Setúbal, é muito versátil e utilizada na produção de vinhos de mesa e do famoso generoso Moscatel de Setúbal. Os vinhos que origina são naturalmente aromáticos e frutados. Em vinhos generosos possui excelente capacidade de envelhecimento, adquirindo através do mesmo um aroma e sabor ainda mais intensos, melados e complexos. 

Na vinha é bastante resistente às doenças devido à sua película dura e bagos grandes. No entanto, a produção excessiva pode diminuir substancialmente o seu sabor. Esta casta, conhecida também por Moscatel de Alexandria, não se encontra só em Portugal, mas também noutros países, entre os quais a França, Austrália, Norte de África e Estados Unidos da América. Tornou-se de tal modo importante que existem na zona mediterrânea várias regiões especificamente demarcadas com a denominação de origem controlada, tal como acontece com a de Setúbal.

Loureiro

Loureiro

A Loureiro é uma casta de grande qualidade e, juntamente com a Alvarinho, uma das principais responsáveis pela afirmação dos vinhos verdes brancos nas últimas décadas. Oriunda do noroeste de Portugal, já é conhecida desde o século XVIII, apresentando maior expansão no Minho, na sub-região de Ponte de Lima e em Espanha, na Galiza. 

Caracterizados por um intenso aroma floral e frutado, apresenta notas de tília, flor de laranjeira, pêssego e por vezes maçã. A sua cor é pouco intensa, apresentando um tom citrino e um sabor elegante e ligeiramente acídulo e harmonioso. Há quem considere que a Loureiro, a par da Moscatel, uma das mais perfumadas castas portuguesas.   

Na vinha, reconhece-se pelo seu cacho cónico e compacto, de tamanho médio, com bagos arredondados e cor verde-amarelada. Tal como acontece com a Alvarinho, a Loureiro é uma videira de grande especificidade, usada também em vinhos de casta única.

Alvarinho

Alvarinho

Considerada a mais nobre casta da Região Demarcada dos Vinhos Verdes, é cultivada principalmente na sub-região de Monção, onde exprime todo o seu potencial. É, também, uma das castas brancas mais cultivadas em Portugal. A modernização das práticas vitivinícolas veio permitir produções mais equilibradas e a revelação de toda a riqueza enológica da Alvarinho, um facto que a faz concorrer actualmente com as grandes castas brancas a nível mundial. Dá origem a um vinho aromático, de onde se destacam os frutos tropicais e notas florais. Possui excelente acidez, estrutura e boa capacidade de envelhecimento.

Arinto

Arinto (Pedernã)

A Arinto encontra-se dispersa pelo território português, com especial incidência em Bucelas, onde é a principal casta cultivada. É outra das melhores castas brancas nacionais, de elevada acidez, capaz de produzir vinhos com muito boa aptidão para envelhecer. Esta acidez natural confere aos vinhos frescura de boca e intensidade aromática, marcada por frutos citrinos. Outras regiões onde se encontra cultivada: Vinhos Verdes (onde é mais conhecida como Pedernã), Bairrada, Beiras, Estremadura, Ribatejo, Península de Setúbal, Algarve e Açores.

Fernão Pires

Fernão Pires (Maria Gomes)

Esta é uma das castas mais antigas e encepadas de Portugal, estando presente em regiões como a Bairrada, Lisboa, Tejo, Península de Setúbal, Trás-os-Montes, Beiras e Açores. Esta videira produz uvas particularmente aromáticas, capazes de proporcionar vinhos de forte personalidade. O seu forte e complexo aroma lembra frutos citrinos como a laranja e flores como a mimosa, tília, laranjeira ou loureiro. A casta também é conhecida por Gaeiro no Oeste, Maria Gomes na Bairrada e Molinho em Setúbal. 

Casta Branca

Encruzado

Sabe-se que a Encruzado surgiu no Dão, região por onde mais se expandiu, sendo no final do século XX e início do século XXI que ganhou maior fulgor. Tem um cacho pequeno, cilíndrico, medianamente compacto e pedúnculo de comprimento médio. Os seus bagos são ligeiramente achatados, médios, de película medianamente espessa e polpa mole. É uma casta produtiva, sem contrariedades de monta, perfeita para a composição de vinhos estremes ou, em alternativa, para abrilhantar muitos dos lotes do Dão.

É uma das grandes castas portuguesas capaz de produzir vinhos de grande qualidade, e com excelente capacidade de envelhecimento, podendo atingir várias décadas. Os vinhos apresentam um aroma elegante e complexo, com notas de pimenta verde, rosa, violeta e algumas notas minerais e citrinas.

Entre as suas maiores virtudes inclui-se uma capacidade única para manter um equilíbrio quase perfeito entre açúcar e acidez, proporcionando nesses casos vinhos mais sérios e estruturados, untuosos. Com o envelhecimento, o aroma desenvolve-se sugerindo avelã, pinhão e resina de pinheiro.

Antão Vaz

Antão Vaz

A Antão Vaz é um ex-libris das castas brancas alentejanas devido à sua robustez. Bastante resistente às doenças e à seca, é muito produtiva e tem maturação tardia, embora homogénea, facto que agrada muito aos produtores e enólogos que já não dispensam a sua presença nos vinhos brancos do Alentejo.

A planície reúne as melhores condições climáticas e geográficas para a Antão Vaz devido às altas temperaturas e bons níveis de insolação. Regra geral, estes vinhos são de alta qualidade, possuem estrutura fina, complexa e um bom grau alcoólico. A tonalidade citrina e o aroma a frutos tropicais são característicos destes vinhos, que na boca se apresentam macios, ligeiramente acídulos e harmoniosamente persistentes. É recomendado o lote com castas como a Roupeiro e a Arinto, que lhe confere normalmente uma acidez mais viva.

A origem da Antão Vaz é portuguesa, embora pouco mais se saiba sobre as suas raízes. A sua circunscrição à sub-região da Vidigueira pode justificar o facto de não aparecer em obras publicadas até 1880. Só em 1889 é citada por Pinto de Menezes na Lista de Castas de Videiras Portuguesas, e cultivada nos concelhos de Cuba, Évora, Portel e Vidigueira.  Fora do Alentejo, é raro encontrar o cultivo desta variedade.

Castas Tintas

Castas Tintas
Aragonês

Aragonês (Tinta Roriz)

Esta casta está espalhada por todo o território português, com especial incidência no Alentejo, Dão e Douro. Nestas duas últimas regiões é conhecida por Tinta Roriz. Será a partir de 1800 que surgem as denominações de Aragonês, Aragonês da Terra e Aragonês de Elvas. Em Espanha, chama-se Tempranillo. Os vinhos que resultam desta casta são ricos em cor e de aroma intenso a lembrar frutos e flores silvestres e especiarias. No paladar são encorpados e macios.

Casta Tinta

Ramisco

Os vinhos de Colares, e especialmente o Ramisco, são ancestrais. Uma das principais curiosidades foi o facto terem sobrevivido à praga da filoxera que devastou as vinhas europeias no século XIX (em Colares o inseto não conseguiu atingir as raízes das vinhas, implantadas a grande profundidade em solos arenosos). A sua fama fez com que muitas vezes fossem mencionados na literatura portuguesa, como por exemplo nas obras de Eça de Queiroz, Batalha Reis, ou Ferreira Lapa, entre outros.

A proximidade das vinhas ao mar e às grandes cidades ditou a quase extinção desta casta devido ao alargamento da construção, da falta de mão-de-obra e fraca rentabilidade de cultivo. Apesar dos vários projetos de recuperação que têm surgido nos últimos anos, atualmente, as vinhas da Ramisco correspondem a menos de 30 hectares. São vinhos de grande carácter, com excelente acidez e enorme potencial de envelhecimento. As uvas têm uma maturação tardia, originando vinhos de baixo teor alcoólico e grande presença de taninos. Enquanto jovens são um pouco rijos, mas o estágio prolongado confere-lhes suavidade e aroma.

Casta Tinta

Baga

A Baga é a casta rainha da região da Bairrada. O seu cultivo ocupa mais de metade da superfície vitivinícola, sendo igualmente muito utilizada no Dão. Os seus cachos são médios e os seus bagos cheios, com coloração negro-azul e polpa mole. É uma casta tardia e com altos níveis de acidez devido à sua forte concentração. A associação destas características resulta em vinhos corpulentos e com boa propensão ao envelhecimento.

Se a vinificação for feita em lagar e na presença dos engaços, a componente tânica é de tal forma densa que obriga a uma longa permanência em garrafa até conseguir atingir o ponto ideal para consumo. Uma vinificação mais suavizada permite um vinho mais elegante que, ainda assim, atinge uma longevidade considerável. Em todo o caso, e apesar de dividir opiniões no que toca à vinificação, a Baga dá origem a alguns dos melhores vinhos portugueses. A cor é geralmente muito densa e o aroma bastante frutado, sugerindo amoras, compota, mel e cânfora.

Touriga Nacional

Touriga Nacional

A Touriga Nacional é a casta mais divulgada além-fronteiras, começando a ocupar cada vez mais espaço nas produções europeias, australianas e californianas. Embora presente em todo o território nacional, a sua casa é no Douro e no Dão, onde alcança melhores resultados. Desta casta obtém-se um vinho de grande qualidade, de cor retinta, com teor alcoólico e acidez elevados. Os seus aromas lembram caruma de pinheiro, flores e frutos silvestres. Na boca é encorpado, persistente, taninoso e frutado. Envelhece com elegância e nobreza, evidenciando aromas e sabores aveludados.

Castelão

Castelão

A Castelão tem grande tradição histórica em Portugal. Esta é a casta tinta mais encepada no território português, com especial incidência em Setúbal e Palmela, onde se popularizou com o nome de Periquita devido aos bem sucedidos vinhos da Quinta da Cova da Periquita, de José Maria da Fonseca. Também se pode encontrar o seu cultivo no Tejo, Lisboa,  Alentejo e Algarve, assumindo várias designações regionais. A título de exemplo, é conhecida por João Santarém no Tejo; e Trincadeira ou Trincadeiro em Lisboa  (sem qualquer relação de parentesco com a verdadeira Trincadeira).

É considerada uma casta bastante versátil pela sua fácil adaptação a diversos climas. Nas condições certas, e aproveitada a sua versatilidade, é considerada uma grande casta, capaz de produzir vinhos tintos e rosados de alta qualidade e muito distintos. Embora com alguma falta de cor, possui geralmente tons granada e um perfil aromático intenso de groselha e ameixa, apresentando-se macios e persistentes no paladar.

É nos solos arenosos da Península de Setúbal que esta videira consegue melhores resultados, dando origem a vinhos mais intensos e carnudos. Tem boa capacidade de envelhecimento.

Casta Tinta

Touriga Franca

A Touriga Franca desenvolve-se num ciclo vegetativo longo, e é muito rica em cor. Possui cachos médios ou grandes, com bagos médios e arredondados. É a casta mais cultivada na região do Douro, sendo um dos pilares estruturais dos lotes durienses, quer no Vinho do Porto, quer nos vinhos de mesa.

Embora produza vinhos menos concentrados e menos alcoólicos do que outras castas da região, produtores e enólogos apreciam muito esta casta pois é fácil de cultivar, de produção homogénea, adaptando-se bem a vários tipos de solos. Resistente e de confiança quanto à obtenção de bons rendimentos.

Os seus vinhos são notáveis pelo perfume frutado e floral, o seu corpo denso, a sua estrutura firme mas elegante, e também pelo seu equilíbrio entre ácidos e açúcares. Casa bem com outras castas, especialmente com Touriga Nacional e Tinta Roriz, embora mais recentemente a casta surja cada vez mais em vinhos monovarietais.

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